23 November, 2017, Thursday

ruído/mm volta à São Paulo para apresentar seu terceiro disco

Publicado em Shows Escrito por  Dezembro 02 2014 tamanho da fonte diminuir o tamanho da fonte aumentar o tamanho da fonte 0
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A banda curitibana ruído/mm (leia-se ruído por milímetro, em minúscula mesmo), esta de volta a São Paulo para apresentação na "casa do Mancha", às 21h deste sábado, e a grande novidade é o seu mais novo trabalho, o terceiro disco, "rasura".

Segue o comentário faixa a faixa por por Alexandre Liblik, pianista do ruído/mm.

O ruído/mm é uma banda instrumental, formada por não-músicos. Com este paradoxo nosso trabalho é, portanto, fruto de muito esforço para compensar nossas dificuldades técnicas, afinal não somos músicos virtuoses.

Isto nos traz uma vantagem pelo menos: precisamos confiar mais em nossa subjetividade e intuição, visto que não dominamos a práxis instrumental.

O disco começa com

- BANDON: Sempre acho que o ruído tem mais em comum com bandas que fazem canções do que bandas puramente instrumentais. Deve ser este jeito peculiar de contar histórias, em que procuramos alternar percepções sutis com emoções intensas, às vezes encontrando o banal e o tédio, entrecruzando com o sublime como na vida, no que inevitavelmente nos leva ao épico e suas conclusões, sejam trágicas ou patéticas.

É uma marca registrada do ruido/mm, que já aparece em discos anterior. Os elementos tribais – DNA de índios eletrônicos – aparecem e desaparecem, mas na verdade, sempre estão lá. O convite à participação coletiva – ritualística – é um objetivo assumido da audição de um disco que não contém... palavras.

Neste sentido do significante sem palavras, pergunto: o que quer dizer "bandon"?

- ELETROSTÁTICA: Dentre os elementos que encontramos na "produtificação" das coisas, temos esta necessidade de catalogar tudo. O ruido/mm está no catálogo do post-rock, afirmam. Eletrostática é uma música que utiliza estes elementos do post-rock, como que aceitássemos este rótulo em algum momento. No fundo, tanto faz – é um tipo de rock.

- CROMAQUI: A Música [no sentido geral, enquarto arte] perdeu muito da sua capacidade de prender nossa atenção a partir do momento em que passamos a obrigatoriamente agregar palavras e/ou imagens, desvirtuando a pureza da experiência musical, muito mais apropriada para descrever o nosso inconsciente, o insondável, o indizível. Em um mundo soterrado por imagens, palavras – data, como os modernos gostam de falar – torna-se praticamente impossível sermos tocados pela música "produto", que é técnica pura, uma práxis irretocável mas absolutamente tediosa, que não deixa espaço para as nossas próprias impressões subjetivas sobre o obscuro que permeia o Real. Cromaqui fala com o fígado, não com o cérebro e é curiosamente a música mais "rasurada" do disco.

- TRANSIBÉRIA: Depois de um começo intenso, sentimos a necessidade de uma pausa no meio do disco, para que as pessoas pudessem respirar. A partir daqui, até onde a música poderia nos levar? A experiência da existência – esta "istigkeit" de Mestre Eckhart, mística, insondável – pode ser traduzida com a música? Ou ainda, a música poderia nos levar por esta experiência, como num trem em que viajamos de olhos fechados?

- INCONSTANTINA: Somos curitibanos. Os malevolentes afirmam que curitibanos são provincianos que querem se crer cosmopolitanos. Eu acredito que mais corretamente sejamos cosmopolitanos com uma nostalgia melancólica da vida provinciana. Mas cosmopolitano aqui é uma forma de adjetivo negativo: na falta de uma tradição, somos conectados com o contemporâneo e o vazio nostálgico desta falta. Não temos a tradição do samba ou do frevo para dar dois exemplos, por aqui. Só poderíamos recriar a música dita brasileira, com um certo distanciamento, uma frieza de quem não tem esta ginga no corpo, o que seria um pastiche, uma mentira. Logo, o nosso jeito de dizer as coisas, a nossa tradição, está para ser inventada. Inconstantina é uma forma de jogarmos com estes elementos ritmicos e musicais que não temos como religião – o que nos deixa à vontade com a brincadeira.

- FILETE: O ruído é uma banda de rock. Gostamos de guitarras. Nossas influências, que são tantas, convergem para este rock garageiro, noise e shoegaze. Se por um lado, eu ache que é a faixa do disco que mias se aproximaria do que pode ser chamado de "convencional", gosto muito do fato de ser autêntica e extremamente representativa do que ouvimos e gostamos no ruído/mm. Se o rock é diversão, filete é diversão, como diria nosso filósofo-baterista, o Giva.

- REQUIEM FOR A WESTERN MANGA: Se alguma música pode ser chamada de programática neste disco, é essa. É a nossa trilha de filme. Como nos filmes do Sergio Leone, é uma mistura do humor (bom e mau), do trágico e do patético. Morricone na veia. O tempo aqui é pretensamente bergsoniano – tem uma duração no seu início, tal qual uma caminhada no deserto; as coisas vão acontecendo e a percepção do tempo muda, de forma que ao final a história faça sentido mesmo que dure 8 ou 15 minutos.

- PENHASCOS, DESFILADEIROS E OUTROS SONHOS DE FUGA: Eu sempre desejei pessoalmente que o ruido tivesse uma lado mais lírico, mais bonito. Uma das coisas boas é que todos ouvimos muito Mercury Rev, Sigur Rós, Radiohead, Grandaddy na vida – referências um pouco diferentes do post-rock esperado. Aqui, os efeitos nas vozes e o theremin se confundem de maneira a criar um estado de espírito adequado para este grand finale, que poderia ser uma canção poderosa com palavras vazias, mas que preferimos manter somente como uma canção sem palavras.

Desejamos uma boa viagem a todos.

SOUNDCLOUD:Ouça o disco Aqui

Link da qual foi extraído os comentários: Revista O Grito!

ruido/mm em São Paulo
06 de Dezembro (sábado)
Local: Casa do Mancha
Rua Felipe de Alcaçova, 89 - Pinheiros
Início 21h
Entrada: R$ 25,

Ler 86 vezes Última modificação em Última modificação em Agosto 22 2016

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