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História do Rock Nacional até o final da década de 70 Destaque

Publicado em História do Rock Escrito por  Jair Dantas e Norberto Jesuino do Valle Setembro 16 2014 tamanho da fonte diminuir o tamanho da fonte aumentar o tamanho da fonte 0
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Anos 50:

Com o estouro do rock nos Estados Unidos e consequentemente em vários países do mundo, esse estilo musical rapidamente também chegou ao Brasil; isso aconteceu no ano de 1955 com a cantora de samba e já consagrada Nora Ney (a rainha do rádio) interpretando uma versão da música de Bill Halley and His Comets, "Rock around the clock", uma trilha sonora do filme "Sementes da Violência", que na tradução brasileira ficou "Ronda das Horas".

Em 1957 o cantor de samba Cauby Peixoto fez grande sucesso gravando o primeiro rock em português – "Rock and Roll em Copacabana", (chegando a ter o apelido de Elvis Brasileiro pela revista Time, na sua fase "rockeira") e o guitarrista Betinho & seu Conjunto que gravou o primeiro rock com guitarra no país – "Enrolando o Rock".

Nesse mesmo ano o rock no Brasil começou a causar polêmica com o sucesso de filmes que eram interpretados por jovens rebeldes como Marlon Brando e James Dean, influenciando uma geração de jovens que naquele momento não estavam querendo saber de músicas mais comportadas como as de Nat King Cole, Ray Coniff e músicas de samba, entre elas, "O general da banda", sucesso daquele ano.

Estes jovens vestiam-se como os grandes astros do cinema, bebiam cuba-livre, mascavam chicles, vestiam jaqueta de couro e calça jeans. As garotas usavam "rabo-de-cavalo e unhas pintadas em cores cintilantes, iam às ruas vestidas de saia plissada de tergal importado, de preferência de bolinha, conjunto de blusas ban-lon. Os sapatos tinham saltinho três e meio". (NOSSO TEMPO, p. 427).

Os adultos não gostavam dessa nova música e também as autoridades, chegando a ser caso de polícia e a ser proibida em São Paulo e no Rio de Janeiro.

A seguir a carta do juiz de menores da capital de São Paulo Aldo de Assis Dias, para o governador Jânio Quadros:

"Tenho a honra de tornar à presença de Vossa Excelência a fim de Expor-lhe situação cuja gravidade está a reclamar a intervenção da mais alta autoridade administrativa (...) trata-se, excelência, dessa famigerada invasão de nossos tradicionais princípios de imoralidade pública por uma importação infeliz de película e discos do novo ritmo norte-americano denominado 'rock and roll' (...) O 'rock and roll', por motivos que um psiquiatra melhor desvendaria, provoca verdadeira explosão libidinosa, contagiando ao extremo (...) O clima é de insegurança, mormente nessa época pré-carnavalesca (e para) assegurar a tranqüilidade da família paulista (peço que determine) à policia providencias energéticas de molde a coibir tanta desordem, tanta licenciosidade, tanta desordem e tamanha afronta aos princípios por que todos nós seguimos". (NOSSO TEMPO, p. 427)

A resposta do governador veio com o apoio e a proibição:

"Suspender, imediatamente, os bailes em que for tocada a música, nos festejos de Carnaval. Avisar todos os empresários e responsáveis, e transmitir as mais rigorosas instruções à policia. Nenhuma contemplação". (NOSSO TEMPO, p. 427)

Em 1959 Celly Campello, faz grande sucesso lançando no Chacrinha a versão de Fred Jorge, da música Estúpido Cupido (stupid cupid) de Neil Sedaka e Howard Grenfield", tornando-se sucesso em todo o pais. Lançou outros sucessos como as músicas, banho de lua e laçinhos cor-de-rosa, ganhando o título de "Rainha do Rock Brasileiro".

A partir desse momento o rock ganha mais espaço em programas de televisão e nos meios de comunicação, sendo que a primeira revista lançada no Brasil foi a "legendária 'Revista do Rock' que chegou às bancas em agosto de 1960. Baseada no Rio de Janeiro, a revolucionária publicação conquistou imediatamente a juventude. Criada pela jornalista e compositora Janette Adib, foi a primeira publicação nacional especializada em rock.". (ROSA, 2007)

O rock nessa fase era moldado de forma bem superficial, apoiado pela expansão industrial no mundo que se apresentava nos moldes propícios para tal, pois ainda não haviam surgido os futuros músicos com ideais representativos e garra, com inspirações na contracultura.

Nos anos 50, tanto a música de big band quanto os musicais entraram em declínio. A razão mais importante para isso foi à nova demanda, em função das vendas dos discos cantados. A programação de rádio estava cada vez mais em torno desses discos – mais do que em torno de apresentações ao vivo de bailes -, e as big bands foram ficando economicamente inviáveis. (MARTIN, 2002, p.7).


No Brasil do futebol, carnaval e samba, o impacto desse estilo, foi reforçado com um novo ritmo que caminhava para contextualizar os acontecimentos sociais e culturais lá de fora, o Brasil seguia firme e forte rumo ao desenvolvimento e o rock faria parte desse novo projeto musical.

O que interessava para o rock'n'roll nos anos 50 era sua juventude, sua expressão como comunhão de interesses entre o músico e o público: gosto pela autocelebração, desfiando a rotina adulta do lar, o trabalho e a escola.

Portanto, a passagem da década de 50 para a década de 60 é entendida pela soma do despertar da criatividade, limitação do proletariado, surgimento dos grupos de rock formados por jovens de classe média.

Anos 60:

A Jovem Guarda no ano de 1963 teve como destaque Roberto Carlos e seus vários sucessos, como: ""Splish Splash" e "Parei na Contramão". No ano seguinte, teve mais sucessos como "É Proibido Fumar" e "O Calhambeque". Teve como parceiros Erasmo Carlos e Wanderléa, devido ao seu poder de penetração nos meios de comunicação, foram presenteados com um programa Dominical, sendo que este ganhou a concorrência com o futebol na mesma emissora. ". O programa terminaria em 1968, com a saída de Roberto Carlos.

Muitos outros artistas fizeram carreiras bem sucedidas, Renato e seus Blue Caps, Golden Boys, Jerry Adriani, Eduardo Araújo e Ronnie Von, que tinham suas canções inspiradas nos Beatles (o gênero apelidado "iê-iê-iê") e no rock primitivo.

No mesmo ano outro programa musical estreava na TV Record, era O Fino da Bossa, dedicado à música popular brasileira, comandado pela cantora Elis Regina.
Segundo Vianna, a Jovem Guarda apesar de ser um movimento sem pretensão cultural, desencadeou um fenômeno de massas poucas vezes repetido durante a história da mídia brasileira (em fase de elaboração).

O começo da década foi marcado pelo surgimento de grupos instrumentais como The Jet Black's, The Jordans e The Cleevers (futuros Os Incríveis), e do cantor Ronnie Cord, que lançaria duas canções: a versão "Biquini de Bolinha Amarelinha" e a "Rua Augusta".

Houve uma certa resistência a entrada na guitarra elétrica na música brasileira pelos artistas puristas e conservadores da MPB no Brasil, a Bossa Nova. Foi esta que encarou com desdém esse gênero musical vindo de fora, aliás, teve de fato uma reação contrária por enxergar no rock apenas um produto que vinha dos EUA sem dar importância aos ingredientes incorporados ao rock, entretanto cabe salientar que também a Bossa Nova é fruto do Jazz produzido e criado também naquele país.

Para o artista abria-se o campo para integrar as influências do jazz norte americano (be-bop, cool jazz ), de um modo mais consistente e nacional, a música brasileira que a partir de uma harmonia mais complexa chamava a atenção para uma relação mais íntima e mais rica entre o som e a voz [...] desse modo a Bossa Nova só poderia fazer parte de um quadro que evidenciasse o crescimento e refinamento dos meios de comunicação de massa [...] (BRANDÃO; DUARTE, 1990, p. 62).

Assim sem dar muita importância o rock se estabelecia, combinando elementos de fora com o regionalismo tropical e estava se criando uma nova tendência entre os jovens brasileiros.

Aqui no Brasil no final dos anos sessenta surgiram aqueles mais conceituais, onde gira a temática toda desse trabalho, grupos como: The Beatniks, Os Baobás, The Galaxies, The Beat Boys, Os Brazões e Liverpool. Sem apelo comercial, o som psicodélico ficou restrito a grupos mais radicais, ao público mais alternativo e sintonizado com o movimento hippie e a poucas gravações, em raros e valiosos Lps e Compactos, muitos dos quais não se têm mais registros.

Estes protagonistas de uma época destacavam-se pelos sentimentos desprovidos de qualquer formalidade instituída pela ala conservadora. Para se ter uma idéia até seu vocabulário era próprio.
Algumas formas de expressões características no vocabulário dos hippies:

• Bicho Grilês - Idioma dos Hippies
• Jóia - Tudo bem
• Dar o cano - quebrar compromissos
• Capanga - Bolsa
• Bicho - Amigo
• Bicho Grilo - Alguém mal vestido
• Repeteco - Repetição
• Chacrinha - Conversa sem objetivos
• Bode - Confusão
• Barra - Difícil
• Arquibaldo - Torcedor de arquibancada
• Geraldino - Torcedor
• Fazer a cabeça - Conquistar
• Podes crer - Acredite
• Eu "tô" que "tô" que nem "tô" de tanto que "tô" - Eu estou bem
• Goiaba - Bobo
• Biônico - Político nomeado pelo governo

O LSD era mais um hábito da banda, Os Mutantes, quando estavam na fase de novas criações, [...] tudo acontecia com muita energia, cores e novas percepções, cita Calado (1996).

No Brasil, toda essa influência dos hippies americanos (Flowers Power), por meio da música, começa ser um canal de um sentimento coletivo trazendo criatividade de artistas plásticos, escritores e músicos causados pelas canções lisérgicas, cores, roupas, e por toda expansão da mente ocasionada pela forma de pensar e agir, citado novamente mais adiante.

Anos 70

Foi seguido de perto por outro movimento, surgido em 1967, o tropicalismo; misturando vários estilos, porque incorporava diversos elementos provenientes de outros setores da cultura, mesmo estrangeiros, o que não passa de doce ironia, já que o rock fora refutado pelos conservadores da MPB. Também foi significativo a grande influência dos irmãos Campos e Hélio Oiticica, juntos com o modernismo de Oswald de Andrade, acrescentando bases fortes para o seu estabelecimento.

Sem incorrer no discurso militante de esquerda, na música de protesto nem no "comercialismo" do iê-iê-iê, a Tropicália trabalhou a política, a estética num mesmo plano, mostrando as contradições da nossa modernização subdesenvolvida a partir de outra forma de arte (BRANDÃO; DUARTE, 1990, p. 71).

Maestros como Rogério Duprat e Julio Medaglia, assim como compositores e interprétes da estirpe de: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Torquato Neto, Tom Zé, Nara Leão e Gal Costa; foram responsáveis por uma irreverência pura, simples, mas com estilo refinado, sem pretensões de aparecer. Também a grande influência dos irmãos Campos e Décio Pignatari com arte do concretismo, de Hélio Oiticica e suas exposições, juntando ao modernismo de Oswald de Andrade, incorporando assim elementos fortes ao Tropicalismo.

Segundo Simbas, eu enxergo como a produção mais rica da música do rock em geral, foram duas décadas e meia, maravilhosas. Parece que caiu uma nave só de feras, de gente rica intelectualmente, que amou o que fez que produziu, que criou, que inovou, nunca mais aconteceu nada igual ou parecido (informação verbal).

No Brasil só com o movimento tropicalista a realidade passou a despertar, a insurgir e a protestar contra os sistemas ditatoriais reinante, jovens se armavam com ideais libertários e eram vistos com maus olhos.

Grupo que surgiu atento a todo esse aparato e revolucionou conceitos estéticos e morais, foram os Mutantes, bem definidos assim por seu método de fazer música.
Segundo Duprat (1972 apud CALADO, 1996, p. 67) os Mutantes no momento de sua efervescência, foram superiores aos Beatles.

Acompanharam todos os músicos da época e aprenderam certo o que fazer e como proceder no momento oportuno, estavam bem sintonizados em seu tempo.
Segundo Mugnani Junior (2007) foi realmente uma das fases mais criativas, inclusive levando em conta que era preciso driblar dupla repressão, da ditadura militar e dos fãs de MPB mais puristas e radicais.

A necessidade e vontade de fazer rock de verdade, contribuíram muito para esses heróis da obstinação, só com boa vontade e sem recursos adequados para gravar e compor, outros talvez, não resistiriam.

Os Mutantes abriram caminho para outros conjuntos conseqüentes do rock nacional, como: Som Nosso de Cada Dia, O Terço, Terreno Baldio, A Barca do Sol, Patrulha do Espaço, Veludo, Joelho de Porco e outros mais. Outros grupos bem elaborados foram os: Aeroblues que revelou Celso Blues Boy, Moto Perpétuo que revelou Guilherme Arantes, Bacamarte que revelou nos vocais Jane Duboc, Som Imaginário que revelou Tavito e Wagner Tiso. Ë importante citar também que o tropicalismo floresceu na época dos grandes festivais de MPB, que revelaram entre eles: Chico Buarque, Ivan Lins, Geraldo Vandré, Milton Nascimento e Walter Franco, filhotes de um período em que imperou a Revolução de 1964 e que fez emergir os alicerces futuro da música.

Segundo Mugnani Junior (2007)" uma das fases mais produtivas do mundo, inclusive com muitos artistas hoje famosos e respeitados em nível mundial, como os Mutantes e Jorge Ben Jor".
Sobre as condições tecnológicas da época as opiniões eram unânimes; pois a precariedade era enorme, os roqueiros tinham que se virar com o que tinham na mão, não existia o roadie , os próprios músicos levavam seus instrumentos. Havia também uma rivalidade sadia entre eles, todos se ajudavam e aquele que tivesse o melhor equipamento era considerado um líder. Para se editar uma gravação então o trabalho era de um primitivismo comum para a época.

O Computador em termos de edição foi uma mão na roda, com dois clics de mouse você corta edita cola e confere com perfeição e se não prestou você desfaz em outro clic, Antes para editar uma fita você metia a gilete na marca de giz que era feita na fita guardava o pedaço cortado no pescoço porque na maioria das vezes você tinha que refazer colava com fita adesiva e quase sempre tinha que recortar outra vez até acertar o ponto, depois de tudo pronto era recomendado recopiar tudo em uma nova fita sem cortes para não ter o perigo de partir durante a execução. Isso era mesmo punk (CALANCA, 2007).

Uma outra dificuldade era a divulgação das músicas e das bandas, não existia essa indústria do Vídeo-Clipe, Internet, revistas especializadas. Para arrumar os discos era um trabalho de garimpo. Quando algum músico comprava uma guitarra, ia a casa dele para ver um encordoamento importado, tudo era novidade absoluta naqueles tempos da era de ouro.

Essa época predominava a da ditadura militar e o rock era um alvo favorito dos generais, muitas letras foram censuradas.

Muitos criaram estratégicas para driblar a imprensa, como fez Raul Seixas, que camuflou o significado de muitas letras de musicas, mesmo assim foi preso, torturado exilou-se para não ser morto. Caetano Veloso e Gilberto Gil viveram essas experiências, cada um com seu jeito particular de encarar a situação.

A última apresentação na boate "Sucata" no Rio de janeiro, já haviam recebido a informação do exílio obrigatório em Londres, Caetano reagiu com indignação e injustiça essa sentença lançada. Já Gil percebeu uma forma de aperfeiçoar como músico instrumentista, e acompanhar de perto toda a psicodélia e origem desses novos rumos musicais que aconteciam fora do país cita Calado, 1996.

No Brasil nos anos 70, o rock sobrevivia como um autêntico órfão de pai e mãe. Mesmo porque se precisasse de alguma forma de sustentação, tinha que se virar sozinho.

Como o rock então conseguiu adentrar num terreno tão infértil e proibido que fosse o Brasil no início da década de 70. Vale resgatar todo o contexto político vivido naquele momento de plena ditadura.

Com o endurecimento do regime político-militar, a partir da decretação do AI-5, legitimando a censura prévia a todos os veículos de comunicação em território nacional, o Brasil viveria até meados da década de 70 num verdadeiro clima de terror político, que se refletiria num forte controle da produção cultural do país. Desde o final dos anos 60 e início dos 70, a peça teatral, o livro, o filme, enfim o produto cultural que os censores julgassem inadequado ao momento político e ofensivo ao Estado seria proibido e seus autores ficariam sob a estreita vigilância do DOPS (Departamento de Ordem Política e social). O rock sofreria também com isso, pois até os puristas da MPB inevitavelmente tentaram burlar com sutilezas e truques nas músicas.

Todas as músicas estavam sujeitas a corte ou reprovação da censura federal, muitos músicos sofriam mesmo a perseguição do departamento alguns artistas criavam maneiras para burlar isso, às vezes colando um efeito para deixar o trecho irreconhecível e mandavam as letras adaptadas a uma palavra mais leve, teve o caso de o Chico Buarque mudar o nome do compositor para Julinho de Adelaide para poder gravar o "Acorda Amor" e os Mutantes que mudaram o "Cabeludo Patriota" para a " A Hora e a Vez do Cabelo Nascer(CALANCA, 2007).

A expansão do mercado interno, modernização do sistema de crédito e o estabelecimento de uma nova política de exportação, aliada aos fatores conjunturais favoráveis: maciça entrada de capital estrangeiro, fortalecimento do setor estatal (Petrobrás, Cia. Vale do Rio Doce, Siderbrás etc.) e apoio à indústria nacional através do Conselho de Desenvolvimento Industrial (CDI) e do Fundo de Modernização e Reorganização Industrial. Tudo isso acompanhado para a crescente demanda dos meios de comunicação e produção radiofônica e disco gráfico.

Com o aumento de grupos de esquerda no Brasil o governo militar segue uma linha de autodefesa, realçando a música de entorpecimento cultural, onde o samba exaltação, com um otimismo nacionalista, cantado por Dom e Ravel, Luis Airão, Alcione e outros, fazem seu papel narcotizante. Enquanto isso grupos de músicos de rock como o Made in Brazil tinham seus discos censurados, como o trabalho Massacre (1977), que só foi relançado anos mais tarde.

A palavra de ordem era "integração social", tanto para o governo militar, que precisava legitimar o seu poder a todo custo, como para os grandes meios de comunicação, que precisavam atingir todos os mercados consumidores do país, para oferecê-los aos seus anunciantes.

Foi no governo Geisel em 1974, que ficou decretado o samba exaltação à "linguagem musical nacional", a música estava então voltada à massificação e embutida num padrão de consumo nacional para o samba, tudo isso apoiado pela Rede Globo e outros. Na realidade, os roqueiros brasileiros eram desprezados pelos grandes meios de comunicação e ignorados pelo grande público, com raras exceções (Os Mutantes, Secos e Molhados e Raul Seixas). Os grupos surgiam e desapareciam sem deixar rastros, muitas vezes sem deixar registros em vinil, mostrando toda a incompreensão do mercado nacional para esse tipo de produção musical.

Portanto fica claro que o rock feito com qualidade inegável como Os Mutantes, Raul Seixas, Secos e Molhados, já sofriam dificuldades. Como imaginar aqueles mais independentes que são o foco do trabalho?

Em 1973, o conjunto Secos e Molhados vendeu mais de um milhão de copias de seus discos, superando até Roberto Carlos naquele ano [...]. Foram consumidos com voracidade e inclusive banalizados em desenho animado, numa paródia da canção "O Vira" para uma propaganda de inseticida na TV, citam Costa, Worms (2002).

O ex-Mutante Arnaldo Baptista já destacava , em 1974, diversos trechos de canções de seu LP "Loki" a preocupação com tudo isso que acontecia no parâmetro da segmentação do mercado musical. Frases como da canção: Será que eu vou virar bolor? Já questionava a banalidade do modo de vida trivial demais dos jovens naquele momento.

Hoje percebi que ando me apegando as coisas, dos bens materiais que me dão valor, o que é isso meu amor será que eu vou virar bolor... Onde é que está meu rock'n'roll...

Com toda essa situação vigente no país, a juventude inconformada diante da repressão e do conservadorismo presente, resultaria num fenômeno contra cultural de diferentes semelhanças e complexo que dominou a produção artística e cultural até meados dos anos 70.

Reflexo da onda internacional dos movimentos de contracultura do final da década anterior, esse movimento surgiu da necessidade de expressões livres, que fundissem a arte aos novos comportamentos, tornando-se, ao mesmo tempo, resposta e contestação ao Brasil moderno do "milagre econômico", num período em que a censura e a repressão foram responsáveis, em parte, pelo fim de muitas ilusões revolucionárias alimentadas pelas propostas estéticas dos anos 60.

Assim sendo, ouvir rock informar-se sobre as idéias e atitude de seus músicos, tentando tocar e ser como ele, passou a ser uma forma de contestar, de procurar um novo objeto, um novo ideal-não apenas a música, mas a carga de símbolos com que poderiam ser vestidas, as possibilidades de ruptura com os discursos conservadores de direita e esquerda. Portanto, na esteira do rock, do início dos anos 70, cresceram os cabelos e os contornos de uma "cultura marginal".

Não podemos esquecer que vivíamos em um regime ditatorial, um governo com mão de ferro e lógico ser cabeludo e fazer rock não era fácil. Alem das dificuldades de falta de estrutura e de falta de profissionalismo por parte dos produtores, donos de boates, diretores de clubes e donos de teatro, ainda existiam a agravante de se estar morando em um país pobre da América do Sul, portanto do terceiro mundo envolvido por uma Ditadura Militar (VECCHIONE JUNIOR, 2007).

Publicações literárias da contracultura, entre 1970 e 1973, foram os jornais e revistas como o Pasquim, Flor do Mal, Bondinho, Presença, Verbo Encantado, Rolling Stone e outros, além de poesias mimeografadas (de Torquato Neto, Capinam, Paulo Leminsk, Waly Salomão, Chacal, Cacaso, Chico Alvim e outros), e um bom exemplo como, o poema Let's play that, de Torquato Neto, musicado por Jads Macalé:

Quando eu nasci
um anjo louco, muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre os dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let's play that

Na segunda metade dos anos 70 o Rock fica mais regionalizado misturado com ritmos brasileiros chamados pelos críticos de Rock Rural, eis aqui o comprometimento do rock nacional com a cultura brasileira.

Esses grupos eram: Sá, Rodrix e Guarabira, Zé Geraldo, 14 bis, O Terço, Boca Livre, suas melodias rurais flertavam um namoro com a mídia, quase todos não se massificaram, esse tipo de som se encaixava bem nos moldes de produtores de novelas e filmes, trazendo novamente a pureza para o rock brasileiro.

Outra fusão foi o forró com o rock, resultando no Forrock de Odair Cabeça de Poeta e Grupo Capote. Outra tentativa de fusão, mais elaborada, foi realizada pelos Novos Baianos (Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Morais Moreira, Paulinho Boca de Cantor e Galvão), que misturavam cavaquinho, sintetizadores e guitarras, produzindo um trabalho altamente dançável.

"Um grupo musical que escreveu, compôs, cantou e, aqui no Brasil deu o toque de movimento que faltava no do show business. Além de ter vivido na prática suas canções e textos, assumiram uma posição dificílima, com postura, discurso, mística, experiência zen e alquimias, tudo com um tom anárquico. Enfrentou o tempo Médici, como numa partida de futebol, dando sangue suor, inteligência, calma, juventude, alma, enfim, todas as virtudes para vencer e, na pior das hipóteses, empatar, porque derrotas tivemos, mas as transformamos em vitórias; não podíamos perder, representávamos a vitória, o sol, a alegria, a irreverência, a criatividade, o sonho e a paz (GALVÃO, 1997, p. 34).

Também se sobressaíram os psicodélicos do nordeste como: o conhecido pessoal do Ceará: Ednardo e Belchior, os pernambucanos: Lula Cortês, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Alceu Valença, entre outros.
Em Minas Gerais já se fazia uma música influenciada pelo rock progressivo e a sonoridade dos Beatles: o "Clube da Esquina", revelando nomes como: Beto Guedes, Lô Borges e Milton Nascimento.
No sul do país, Porto Alegre, precisamente, apareciam por lá os Almôndegas que revelariam mais tarde os irmãos Kleiton e Kledir, Bixo da Seda (antigo Liverpool) e Hermes de Aquino.

Havia também os "malditos": Jorge Mautner, Walter Franco, Tom Zé, Jards Macalé, Sergio Sampaio, Luiz Melodia, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, que, espremidos entre os roqueiros e os astros consagrados da MPB, procuravam fundir esses dois universos através de obras bem pessoais e originais, que seriam devidamente esquecidas pela mídia, interessada no estabelecimento de certos padrões hegemônicos de consumo e baseada, principalmente, nas trilhas sonoras de novelas.

Se no rock já não havia espaço para os grupos mais engajados e fortes instrumentalmente, o que dizer dos poetas andarilhos da época?

No final de 1973, o modelo de desenvolvimento do governo Médici começou a dar sinais de cansaço. O regime militar perdeu força, pois a economia também perdia com isso a conjuntura do governo Geisel não tinha mais amplo domínio na sociedade. Dois fatos ocorridos durante o governo Geisel levaram a um aumento da pressão popular no sentido de uma "abertura" do regime político: as mortes do jornalista Vladimir Herzog e do metalúrgico Manuel Fiel Filho. As forças populares, também em processo de reorganização, voltavam a se manifestar através de manifestações estudantis (l977) e greves, que, a partir de 1978, agitaram o ABC Paulista, reivindicando aumentos salariais e liberdade de organização sindical.

Os grupos de rock aproveitavam essas greves para se apresentar entre um show ou outro, como ginásios, comícios, tudo em troca de mostrar essa arte tão sofrida naqueles tempos difíceis.

As grandes bandas de rock dos anos 70 e lógico incluo o Made nisso deixaram de se apresentar em boates e clubes e passaram a tocar em Ginásios de esporte e também em Estádios de futebol, e olha que não tinha a mídia da TV, no caso a TV Globo empurrando e projetando as bandas para o sucesso como aconteceu com as bandas de Pop Rock dos anos 80 (VECCHIONE JUNIOR, 2007).

Foi por essa época que ocorreu uma maior integração entre a "música popular brasileira e a música latino-americana". Compositores e cantores chilenos, argentinos, peruanos, uruguaios e brasileiros passaram a compor e cantar juntos, fosse a Europa ou mesmo no Brasil, quando a situação permitia, devido a uma identificação com os problemas sócio-políticos ocorridos em seus paises. Dessa união, surgiram conjuntos, como o Raíces de América, por onde passou o vocalista Simbas, além da intérprete Mercedes Sosa, que marcou presença em palcos e discos brasileiros.

Em agosto de 1979, logo após uma ampla campanha popular, no governo João Baptista Figueiredo (1979-1985), é decretada a anistia, beneficiando brasileiros presos ou exilados por motivos políticos. Por outro lado, a Arena e o MDB são extintos, criando-se novos partidos (PMDB, PDS, PTB, PDT, PT, e PP), a partir de uma Reforma Partidária imposta pelo governo, cujo principal objetivo era dividir o movimento de oposição ao regime. Dessa forma, criaram-se as condições necessárias para uma transição necessária; o rock esperava assim ser reconhecido nesses novos rumos que o país tomava.

A partir de meados da década de 70, o rock também começou a perder parte do seu encanto no país, já que novas formas de música passaram a ser exportadas para os mercados periféricos da indústria do disco, centradas nos Estados Unidos. O produto opcional mais importante, que surgiu para dividir o mercado da música de massa, nos EUA e fora da dele, foi à música de dança, derivada do funk: a discothèque.

O fenômeno discothèque no Brasil veio afirmar o controle exercido pelos grandes meios de comunicação sobre o mercado disco gráfico, principalmente com a implantação das rádios FMs no nosso país [...] que junto com as gravadoras acabariam por controlar todos os canais de divulgação da música jovem[, estabelecendo certos padrões de consumo e restringindo, em parte as informações [...] (BRANDÃO; DUARTE, 1990, p. 82).

Então com uma indústria fonográfica mais articulada em termos de marketing, a discothèque tornou-se alvo de maciças produções, demonstrando a total recuperação e o aumento do mercado fonográfico no país. Esse fenômeno, que vendeu grandes quantidades de discos, principalmente em 1978 ( na esteira do sucesso do filme Os embalos de sábado à noite e da novela Dancin' day's), não deixou influências mais marcantes no modo de fazer música no Brasil, apesar do surgimento do Black Rio ( no Rio de Janeiro) e do Chic Show (em São Paulo) , eventos e bailes de música negra para o público dos subúrbios. A discothèque traria conseqüências importantes para a sedimentação do mercado de disco no país, a partir da imposição de certos padrões de consumo para a chamada música jovem.

Na verdade, essa recuperação do mercado fonográfico brasileiro, em crise desde o final da década de 60, será ditada pela própria expansão da indústria cultural nos anos 70, coincidindo com a concretização do regime militar. Dessa forma, a indústria cultural se beneficiou diretamente do regime, através de investimentos governamentais no setor de telecomunicações, que, por sua vez, impulsionou o crescimento da indústria eletrônica. Um exemplo disso é o poder de impacto da televisão no país, que se intensificou a partir de 1969, quando se iniciaram as primeiras transmissões em rede nacional, pela TV Globo, o que contribuiu ainda mais para o crescimento e a concretização de uma indústria cultural no Brasil.

O fato é que, no final dos anos 70, o Brasil se tornou o quinto mercado fonográfico do mundo, deixando profundas marcas na indústria cultural do país. Grande parte dos investimentos externos na indústria cultural brasileira estava vinculada ao crescimento da indústria do disco nos anos 70, período em que a música pop nacional e internacional teve grande destaque. Cinco das dez maiores empresas produtoras de discos atuantes no Brasil eram filiadas às grandes multinacionais da indústria fonográfica.

Segundo Dias, "minha saída do Brasil foi um período de grande reciclagem na minha vida, o mercado crescia lá fora e sentia necessidade de viajar harmoniosamente, como profissional e músico toquei com os maiores nomes da música instrumental e do jazz, [ ]... Cheguei a um estágio de considerar música como transcendência na minha própria vida refletida como o ar novo que respirava " (informação verbal).

Em 1977, surge no Brasil um movimento sem grandes pretensões técnicas de instrumentação e arranjos superproduzidos, é o movimento punk que dotado de letras fortes e agressivas contra todos os sistemas, mostra um rock emergencial produzido pelo novo momento vivido na industria cultural. Grupos como Lixomania, Inocentes, Olho Seco, Ratos de Porão, entre outros, mostravam a que vieram, principalmente da região da periferia da cidade.

Um dos mais representativos vocalistas dos anos de ouro do rock nacional sintetiza em uma frase seu pensamento sobre movimentos surgidos nos anos setenta:
Segundo Simbas, "nós nos mantivemos firmes porque esses novos estilos não atrapalharam em nada, não teve tanta representatividade, teve sua importância para alguns mais para outros menos". (informação verbal).

Sem dúvida um tema tão eloqüente, para um gênero tão afinado com as aspirações de uma época que jamais será esquecida, o verdadeiro rock'n'roll promete não deixar de ser lembrado, ainda mais nesse propósito futuro do tema, pois quando se trata de artistas tão especiais, queridos e refinados com sabedoria impar sobre o assunto, a intenção é a divulgação continua.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRANDÃO, A. C., DUARTE, M.F. Movimentos culturais da juventude. 15o ed. São Paulo: Moderna, 1990

CALADO, C. A divina comédia dos Mutantes. 2. ed. São Paulo: Ed. 36, 1996.

CALADO, C. Tropicália: a historia de uma revolução musical. São Paulo: Ed. 36, 1997.

COSTA, W.B., WORMS, L.S. Brasil século XX: do pé da letra da canção popular. Curitiba: Nova Didática, 2002.

GALVÃO, L. Anos 70: novos e baianos. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1997.

MARTIN, G. (org.). Fazendo música: o guia para compor, tocar e gravar. Brasília: Universidade de Brasília, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002.

 

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