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A filosofia da Legião Urbana

Publicado em Notícias Escrito por  Abril 28 2015 tamanho da fonte diminuir o tamanho da fonte aumentar o tamanho da fonte 0
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Como a banda brasiliense colaborou na evolução do pensamento? Com pitadas de ética, estética, metafísica...

Alguma vez você se perguntou por que o cantor Renato Manfredini Júnior, líder da banda Legião Urbana, morto em 1996, adotou o nome artístico Renato Russo? Pois saiba que ele escolheu o sobrenome fictício como forma de homenagear os filósofos Jean-Jacques Rousseau e Bertrand Russel, assim como o pintor francês Henry Rousseau. Com o pensador francês Rousseau, por exemplo, o artista compartilhava a desconfiança quanto à idéia de progresso e a valorização profunda dos sentimentos.
Em verdade, referências a filósofos, escritores e cineastas podem ser encontradas em toda a obra do Legião Urbana. No primeiro trabalho do grupo, o álbum "Legião Urbana", de 1984, que apareceu logo depois de ter sido reprovada no Congresso Nacional a medida que propunha eleições diretas para presidente, já encontramos desconfiança quanto ao progresso da técnica numa visão filosófica que combina a descrença no futuro dos punks (no future) com a busca romântica por alguma utopia. É o que podemos perceber, ao analisar a letra de uma música como "Petróleo do Futuro". No refrão há uma referência à filosofia:

"Filósofos suicidas
Agricultores famintos
Desaparecendo
Embaixo dos arquivos..."

A afirmação da existência de filósofos suicidas e de agricultores famintos funciona como antítese, figura de linguagem que age unindo idéias que seriam opostas. Se é contraditório, quando sabemos que a atividade do agricultor é produzir alimentos, falarmos em agricultores famintos, deve ser também assim quando falamos em filósofos suicidas, donde depreendemos que a atividade do filósofo é oposta à do suicida. A filosofia se ligaria à vida, à valorização dela.
Qual seria a origem da contradição que a música aponta? Aristóteles dizia que a filosofia começa pelo espanto. O que nos espantaria hoje? Provavelmente as contradições que acontecem em nosso dia-a-dia. Perceber algo para o qual não temos explicação, perceber que as respostas que recebemos prontas muitas vezes são falhas, perceber nossa finitude... Quando não temos esse espanto, nos deixamos simplesmente levar pelo que é comumente aceito, deixamos de buscar qualquer resposta.
Nossa sociedade não prima por querer esse tipo de espanto. As contradições da realidade tendem a ser encobertas, a "desaparecer embaixo dos arquivos", como apenas números em estatísticas. A regra pede que esqueçamos tais teoremas e não nos espantemos. A letra de "Petróleo do Futuro" começa assim:

"Ah, se eu soubesse lhe dizer o que eu sonhei ontem à noite
Você ia querer me dizer tudo sobre o seu sonho também
E o que é que eu tenho a ver com isso?"

Os versos marcam bem a distância que cotidianamente vai separando as pessoas de seus próprios sentimentos e da comunicação desses. Se uma pessoa abre para outra os segredos de seus sonhos, o que garante que a outra pessoa teria essa mesma disposição para contar/ouvir? Assim, cresce a indiferença, e as pessoas se afastam cada vez mais umas das outras: "e o que é que eu tenho a ver com isso?" (verso repetido várias vezes na letra).
A solução talvez estivesse em se encaixar em alguma tribo, na qual as pessoas se identificassem e pudessem ser sinceras. Mas onde existem essas tribos? Seria um devaneio:

"Ah, se eu soubesse lhe dizer o que fazer pra todo mundo ficar junto
Todo mundo já estava há muito tempo
E o que é que eu tenho a ver com isso?"

É claro o teorema, porém não se desvenda a solução. Ninguém toma posição, e todos aceitam as coisas como são impostas:

"Sou brasileiro errado
Vivendo em separado
Contando os vencidos
De todos os lados"

O individualismo se impõe: a regra é a indiferença e esse é o "Petróleo do Futuro". Como vencer essa distância que cada vez mais afasta as pessoas de uma verdadeira amizade? Como pensar nosso país? Como buscar sentido para nossa vida? Essas questões movem toda obra da Legião Urbana. Daí ser sempre muito interessante mergulhar nas letras dessas músicas.

Autor: Marcos Carvalho Lopes é filosofo e professor de Filosofia. Autor do livro "Canção, Estética e Política: ensaios legionários".

Fonte: Discutindo Filosofia, ano 1, n. 3, p. 54-55

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